Como se espera dos meninos, quando criança ele preferia brincar com carrinhos. Sentia-se mais confortável na companhia de outros garotos como ele. Na escola, em vez de ficar brincando com as meninas, ele preferia jogar bola, suar bastante e voltar com uma ou outra parte do corpo ralada para a casa.

 

Como se espera de todo menino, ele não tinha tanta preocupação com a aparência. Deixava o cabelo bem curtinho para não atrapalhar em nada e nem sentir calor nos dias mais quentes de verão. Tênis e calça jeans eram suas escolhas preferidas no guarda-roupa, quase uma espécie de uniforme.

 

Como se espera de todo menino, ele queria ser livre. Cursar engenharia, deixar a barba crescer, comprar um carro, conhecer o mundo (se possível, ao lado de alguém que o fizesse feliz).

 

Como se espera das meninas, ele nasceu com uma vagina. Um universo em cor-de-rosa lhe foi imposto. Vestidos de saia rodada, barbies e muita maquiagem deveriam ser seus companheiros mais próximos, íntimos.

 

Como se espera das meninas, ele desenvolveu seios. Aprisionou-se por entre as alças apertadas de um sutiã cuja função ele desconhecia. De repente, aquilo se tornou uma barreira entre ele e seus antigos amigos. Agora, eles enxergavam essa protuberância peitoral como o certificado de que ele fazia parte de outro grupo. Um grupo inferior.

 

Como se espera das meninas, uma vez por mês sua genitália sangrava. Era necessário se proteger do seu próprio corpo usando absorventes incômodos. Ele testou diversos modelos e nenhum deles lhe pareceu natural.

 

Ele se apaixonou por uma menina que tinha um pênis. Transou com ela e, desse dia em diante, o medo se instaurou. Como se espera das meninas, ele podia estar com um embrião no útero.

 

 

Por que precisamos ser o que o mundo espera de nós?