Assim como a homossexualidade um dia já foi uma patologia, ou seja, considerada uma doença, a transexualidade ainda é. O DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) é um documento escrito e organizado pela APA (Associação Americana de Psiquiatria). Por ser autoridade no assunto, profissionais e gestores da área da saúde de todo o mundo observam o que esta instituição entende por doenças psiquiátricas e psicológicas. Em sua última versão, atualizada em 2013, o DSM-5 cataloga a transexualidade como uma “disforia de gênero”. O termo “disforia” vem do grego e caracteriza um desconforto mórbido causado por ansiedade. Na psiquiatria essa palavra é interpretada como uma sensação de alheamento ou despersonalização do próprio corpo: olhar para si e achar-se fisicamente incoerente com o seu eu.

 

Apesar do DSM, a CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) também é outra fonte utilizada mundialmente. A transexualidade figura novamente como doença em sua versão mais recente, a CID-10 (concebida em 1992 pela OMS [Organização Mundial da Saúde]). Dentro deste manual, o código F64.0 consta como “transexualismo” e o código F64.1 como “travestismo bivalente”.

O DSM-4 foi uma das versões que mais ganhou alterações ao ser atualizado em 1994. Naquela época, a transexualidade era considerada um "Transtorno de Identidade de Gênero".

O DSM-5, apesar de mais recente, ainda mantém a transexualidade em seu index de doenças mentais. Agora, ela foi renomeada e passa a ser chamada oficialmente de "disforia de gênero".

Daniela Andrade, transativista

Uma vez que a transexualidade é tomada como uma doença e toda doença tem um tratamento, surge o protocolo transexualizador. Publicado pelo Ministério da Saúde em 2008, ele tem o objetivo de regulamentar o atendimento médico que o Estado oferece às pessoas trans. Dessa forma, um indivíduo que se identifica com gênero oposto ao designado no nascimento deve passar por, pelo menos, dois anos de atendimento psicológico para que um profissional possa atestar por meio de um laudo que sua ou seu paciente é de fato transexual. Este é apenas um de tantos outros laudos que quem é trans deve conquistar para conseguir ser atendida pelo Estado no intuito de conseguir a cirurgia de redesignação genital feminina (a masculina ainda está em fase experimental no Brasil) - capaz de trazer a suposta "cura do transexualismo". Além do psicológico, também é necessário um laudo da assistência social (que comprove que socialmente o sujeito em questão já é admitido em seu círculo social com o gênero que reivindica), outro de um psiquiatra (que comprove que, fora o "transexualismo", a pessoa não sofre de nenhum outro tipo de doença mental), e mais um endocrinológico (atestando que a mulher trans que pretende conseguir a cirurgia pelo SUS esteja se hormonizando regularmente, há, no mínimo, dois anos).

Maria Lúcia Pereira, psicóloga do CRT

João W. Nery, trans homem e escritor do livro "Viagem Solitária"

Hoje, no Brasil, somente cinco hospitais realizam a cirurgia de redesignação genital: o Hospital das Clínicas de Porto Alegre (RS), o Hospital das Clínicas de São Paulo (SP), o Hospital das Clínicas de Goiânia (GO), o Hospital das Clínicas de Recife (PE) e o Hospital Mário Covas em Santo André (SP). No Rio de Janeiro, o HUPE (Hospital Universitário Pedro Ernesto) fazia a cirurgia, no entanto, devido ao excesso de pacientes e incapacidade de atender a todos, eles não realizam mais operações. Um médico que trabalha em um desses hospitais ganha em média R$ 1,2 mil para executar o procedimento. Quem opta pelo sistema privado de saúde encara um preço que gira em torno de R$ 50 mil.

Daniela Andrade, transativista

Rafa, maquiadora