Era uma noite de quarta-feira quando nós fomos ao Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, dentro do Centro de Referência e Tratamento de DST/AIDS, próximo à estação Santa Cruz do metrô, em São Paulo. O prédio parecia antigo e as estruturas desgastadas não combinavam com o efervescente desenvolvimento da linha lilás ali por perto.

 

Depois de subirmos alguns lances de uma escadaria de madeira, encontramos, no final do corredor, o consultório de Maria Lúcia Pereira, psicóloga no ambulatório. Lá, as travestis e transexuais podem encontrar assistência médica e psicológica garantida pelo Governo do Estado de São Paulo.

 

Apesar de termos combinado de conversar exclusivamente com Maria Lúcia, para entender como funciona o seu trabalho, além de ouvir relatos de seus seis anos de experiência no tratamento de pessoas trans, nos deparamos com uma outra figura ali presente – que preferiu se manter anônima. De cabelos loiros, longas unhas pintadas, e um forte sotaque argentino, conhecemos uma de suas pacientes, que nos acompanhou até o fim da conversa. “Posso falar algumas coisas?”, perguntou enquanto guardávamos os equipamentos de filmagem. Ao permitirmos, ela nos contou uma série de privações pelas quais passou: após anos dedicados à uma grande empresa de histórias em quadrinhos, foi demitida ao iniciar o processo transexualizador. O aluguel de sua casa estava em risco, pois, de acordo com o proprietário, “o inquilino desta propriedade era um senhor, e não a senhora”. 

 

“Eu sou considerada indigente até por mendigos”, disse ao lembrar de um episódio recente, em que um morador de rua a humilhou por ser travesti.

 

Ela não está sozinha.

Maria Lúcia Pereira, psicóloga

Conheça a história dessas pessoas trans: suas vivências e a difícil passagem pela transição

Samuel Silva, assessor de comunicação do IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade)

Lorenze Paz, estudante

Amara Moira, doutoranda em Estudos Literários pela UNICAMP e prostituta